segunda-feira, outubro 30, 2006

Balada De Todo Fim Humano


Caminho muito pelo litoral grego, sem dar nomes ou procurar saber os nomes dos lugares onde minhas asas são batidas. Nesta noite grega, noite melancólica, noite silenciosa, noite quedante em toda sua elementaridade, sinto uma agonia. Agonia de uma existência materialista, agonia de uma existência solitária em todos os cantões das morada nas quais tentou pisar. Aproximo-me da melancólica casa, silenciosa casa, casa quedante de dores em suas portas, paredes, janelas e piso. Me envolvo no Éter Oculto existente entre as Dimensões em redor de toda a Terra e nela adentro, adentro para visitar uma existência que despede-se deste recanto terrestre mais de sofridos pés a cortarem-se em pontas agudas de espadas envenenadas em todo solo nos quais pisam do que felizes pés a pisarem em tecidos suaves que muito acariciam em todo solo nos quais deslizam como em vôo. A existência dele se esvai, dele que não me importo em saber o nome, dele que em leito melancólico, em leito silencioso, em leito quedante por outros demasiados fins em seu lençol está já rodeado pelos Anjos Mensageiros Da Morte.

Meus Irmãos Elevados me vêem, mas contra mim nada podem fazer, estão ocupados em amparar o espírito que do corpo daquele que está em leito já morto vai se desprender. Zap A Tos, Puj A Hor e Too A Vto não são vistos, nem sequer sentida a sua Presença, pelo agonizante em leito já morto. Eu, no entanto, sou pelo agonizante visto sentado à esquerda de seu leito já morto.

- Você não se parece com um dos Anjos Mensageiros Da Morte.
- Eu não sou um Deles e nem sou mais um Anjo Elevado.
- És um Anjo Caído?
- Sim, sou um dos Anjos Caídos.
- Tens um nome?
- Tinha um nome.
- Os Anjos Mensageiros Da Morte estão aqui?
- Estão.
- Ora, então, finalmente, Tan A Tos atendeu aos meus chamados...
- Tu conheces os Nomes Verdadeiros Imateriais Dos Seres Elevados.
- E conheço também a Inominabilidade, Anjo Noturno Inominável. Fui um Iniciado, um seguidor do meu próprio Caminho. Desprezei tanto o Caminho Da Mão Direita quanto o Caminho Da Mão Esquerda e o Caminho Do Meio. Fui para mim mesmo um Iniciado e apenas para mim obtive as glórias que a muitos são negadas... Fiz uma Lilith para me aquecer nas Noites Invernais... Fui Lúcifer nas Noites Luzidias... E cuspi na Face De Deus nas Noites Blasfemantes... Deus! Merda de Deus! Porra de Deus! Caralho de Deus! Deus não existe, meu caro Anjo Noturno Inominável, isso é apenas uma invenção humana... Se Deus existisse, eu... Estou a delirar, suponho algo que eu sempre tive prazer em vomitar acima, sempre... Mas, morrer é sempre assim... Morrer não, tudo já está morto... Desencarnar... Desencarnar é sempre A Balada De Todo Fim Humano... Tu nunca sentirás o que é desencarnar, Anjo Noturno Inominável...
- Eu sinto o que é desencarnar e sentirei eternamente o que é desencarnar, Iniciado Agonizante. Fui despido de minha Vestimenta Celeste, de minha Carne Celeste, ao Cair e continuo ainda Caindo sem Ela.
- Por uma maldita mulher tu caistes?
- As Filhas Da Face Feminina De Nosso Pai Em Sopro...
- Vosso Pai, Anjo Noturno Inominável! Não sou filho do seu Deus impotente que, se tiver um Nome, deve ser a mesma desgraça na qual a Humanidade diz que existe!
- Não falo de Deus e o Nosso Pai Em Sopro não é Deus.
- "Ele Possui Muitos Nomes E Nenhum Nome", disso eu Sei, Anjo Noturno Inominável...
- Não, Ele É O Nome Que Não É Um Nome.
- O Nome... Ah, O Nome... Aquele Nome... Na Vestimenta Luzidia minha, eu conheci O Nome... Nome... O Nome... No entanto, Anjo Noturno Inominável, eis-me aqui agonizando por causa da porra da Aids, rodeado por Anjos Mensageiros Da Morte e sendo consolado por uma merda Caída como ti! Em nada Aquele Nome me auxiliou, recebi de todas as minhas buscas apenas a Aids! Fui parte da minha própria história e recebi a Aids como recompensa!
- A tua recompensa faz parte Daquele Nome, Iniciado Agonizante.
- Faz... Mas, não me conformo... Não me conformo... Não me conformo em acabar assim...
- Conformando-se ou não, tendo sido o mesmo indivíduo que tu fostes ou não, tu acabarias esta tua existência com a Aids em ti. Não vim aqui para consolá-lo da maneira que tu pensas. Consolo apenas a vossa Agonia Espiritual, que não poderá deixar-te mesmo depois que desencarnares. Ela te perseguirá e será perseguida pelo vosso ódio e rancor contra as Coisas nas quais como Iniciado corrompido pelas suas ambições tu tocastes. O Poder Das Aberturas De Todas As Portas Do Grande Mar fostes a ti dado e tu te recusastes a revestir-se da Vestimenta Dourada Da Grandiosidade Espiritual para engolfar-se nas Ondas Dos Oceanos Da Busca Material Da Grandiosidade Material. Tivestes mulheres, dinheiro, jóias, carros, mansões e tudo perdestes por tua própria Vontade de sempre buscar mais para si. A Aids é-lhe uma benção, pois ela impediu o continuar de vossa Caminhada. Sem ela em ti, tu farias muito mais mal à vossa Alma Eterna.
- Chorarei por causa disso muito, Anjo Noturno Inominável...
- Orarei por ti muito, Iniciado Agonizante.

Eu me ergo.

Eu olho para os meus Irmãos Elevados.

Eles envolverão o Iniciado Agonizante.

Agonizante em ódio.

Agonizante em descrença.

Em muitas descrenças como a dele a Humanidade está.

Em muitos como ele eu poderei aprender a novamente ser um Filho Da Caridade.

São desses tipos de humanos Caídos que eu posso fazer tudo que durante cinquenta mil anos não fiz.

Zap, Puj e Too envolvem-no com o Manto Da Transição.

Ele agora vê os três Anjos Mensageiros Da Morte.

Sorri.

Nada diz.

Fecha os olhos.

Eu fecho os meus olhos.

Oro na Melancólica Morada Interna minha.

Oro na Silenciosa Morada Interna minha.

Oro na Quedante Morada Interna minha.

Oro pela melancólica, silenciosa e quedante Transição dele.


Um comentário:

BlueShell disse...

Foi apenas mais uma concha que se perdeu! Quem sentirá a sua falta?